Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

28.1.08

“I am Legend”, mais um filme com título mal aplicado e pior traduzido, que diferença faz?...

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Publicado no Diário de Coimbra no dia 08 de Fevereiro de 2008

O poeta, crítico, ensaísta e homem de cinema Dan Schneider oferece-nos uma detalhada apreciação do livro de Richard Matheson, de 1954, cujo título é o mesmo do filme de Francis Lawrence actualmente a ser exibido em Coimbra.
Refere, entre muitas outras coisas, as duas obras cinematográficas de 1964 e de 1971 (“The Last Man on Earth” e “The Omega Man”) que também nele se basearam, sendo muito clara a sua preferência pela primeira, com interpretação do grande actor que foi Vincent Price.
Do livro diz-nos tratar-se de uma das melhores obras escritas a respeito da solidão humana, ultrapassando Robinson Crusoe de Daniel DeFoe, sendo igualmente uma desmontagem do mito dos vampiros em termos de modernidade.
Não hesita em colocá-lo a par de “Moby-Dick” e das “Aventuras de Huckleberry Finn”. Ultrapassa, a seu ver, as contingências de uma categorização na área da ficção científica ou da novela pós-apocalíptica, constituindo-se como alegoria subtil ao MacCarthismo e ao rígido conformismo dos anos 50, factos percursores das esterilizações político-culturais e ideológicas da contemporaneidade.
Conhecidos os rigores e a intolerância da América de Joseph MacCarthy e J. Edgar Hoover poderemos facilmente imaginar a coragem da obra de Matheson que, apesar de tudo, conseguiu impor-se como notabilíssimo autor de criações para o cinema, sendo um dos principais ficcionistas ao serviço da série de culto “Twilight Zone”.

Ignorar as evidências e aceitar qualquer patranha, eis outra forma de ser “feliz”

É muito difícil esclarecer neste breve espaço todo o conjunto de tropelias que Hollywood (um “bosque sagrado” como há poucos…) efectua sobre a obra original de Richard Matheson, bastando assinalar que a vira completamente de cabeça para baixo.
Nem o princípio, nem o meio, nem o fim, nem o cenário, nem a índole do protagonista e, “last but not the least”, nem o carácter dos implacáveis vagantes nocturnos têm nada a ver com os vampiros da sua obra.
Quanto às incongruências ou exageros ficcionais, ninguém parece ralar-se com isso. Numa Nova York apocalíptica e desértica há vários anos, Robert Neville continua abastecido de energia eléctrica, num apartamento de Washington Square onde continua a dispor de abundante água corrente até para dar banho a Samantha, sua cadela e companhia inseparável.
Não só no cinema, mas também na vida real, as pessoas continuam a acreditar piamente em tudo aquilo que querem, sem olhar às realidades mais objectivas, a toda a lógica evidente e até às suas mais elementares necessidades.
Será essa a receita para uma infalível e antidepressiva felicidade?...
No cinema não, quanto mais na vida.

Para salvar a humanidade, um tenente-coronel da US Army, pois claro

Como frequentemente acontece, é no desempenho dos artistas de renome (como Will Smith no papel de Robert Neville, neste caso) e dos especialistas em efeitos especiais que se baseia a enorme probabilidade de sucesso da grande “máquina dos sonhos”, já para não falar no imenso trabalho desenvolvido e nos milhões de dólares de destemido investimento.
Um dos segredos tem nome e chama-se CGI: “Computer Generated Imagery”, ou “grafismos computorizados a 3 dimensões” ou efeitos especiais por via digital, tanto faz. Da abstracção digital surge um leão, um tigre, um fantasma que mete medo como os diabos, ou trinta, ou trezentos, rugindo esqualidamente e trepando por arranha céus acima para matar o herói, entrincheirado e disposto a salvar a humanidade, já completamente aniquilada pela engenharia genética, entretanto muito na berra!...
A indústria do cinema vai alimentando bichas de frequentadores que, para além do mau hábito estereotipado das pipocas e da beberragem castanha, também de lá trazem reservas de curiosa fantasia, sonhos e combustível de ideias para consumo imediato e posterior.
Essa energia expande-se em todas as direcções, todos e cada dia que passa.

Se já estamos a caminho, saberemos para onde vamos?

Elevado número de crianças consome infinidade de imaginários de que muitas pessoas da minha geração não fazem a mínima ideia, por distracção ou desinteresse perante fenómenos que resolvem ignorar.
Uns evoluem não se sabe para onde, afundando-se os outros em saudosismos sem salvação possível.
Na fila à minha frente, sentavam-se duas crianças certamente com menos de treze anos de idade (barreira que nos EUA é acentuadamente recomendada aos pais e responsáveis para visionamento deste filme), que saíram da crispação do “thriller”, placidamente, para a animação consumista do colorido Mega Centro.
Que sementeira de emoções, que reserva de sonhos ou que recurso de energias da mente terá produzido naquelas cabeças de meninos um tão intenso desfilar de impressões?
Quem poderá adivinhar, se ninguém parece desejar saber?
Que normalidade serena será esta?
Para onde é o caminho, se parecemos saber todos tão bem para onde vamos?...


“Call Girl” de António-Pedro Vasconcelos, num cinema perto de si…

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Publicado no Diário de Coimbra de 22 de Janeiro de 2008


Envergonhado por uma ausência pela qual alguns devotados leitores me vão zurzindo a tranquila consciência de quem faz, não o que quer, mas tudo aquilo que pode, aqui estou desta vez para vos falar de cinema.

Para um cinéfilo que não vai a todas e já não colecciona, como antigamente, os bilhetes e programas dos filmes que vai ver, as mais gratas referências que me ocorrem a respeito da obra de António-Pedro Vasconcelos são os seus magníficos “O lugar do morto” e “Jaime”.
Realizador com obra feita, embora em descontinuidade acentuada, queixa-se do mesmo que muitos se queixam: de não ter condições para prosseguir uma obra assídua e centrada naquilo que de melhor sabe fazer, ou seja: cinema de qualidade.
O autor é também uma voz clara na denúncia de muitas artimanhas com que alguns habilidosos vão conseguindo “orientar-se” na confusa selva dos favores institucionais, o que não lhe deve facilitar a vida.

“Call Girl”, título equívoco para o sucesso

A expressão inglesa em si, que o Cambridge Dictionary me diz ser “a female prostitute who arranges her meetings with men over the telephone”, é traduzida pelos brasileiros com a frescura linguística que lhe é reconhecida, por “garota de programa”.
Em português europeu (descendente da clássica latinidade), a tradução de “call girl” é… “call girl”.
Dá mais pica, tem outro sabor, caraças!
O filme foi apresentado com certo sensacionalismo que me colocou de pé atrás. Se não fosse a persistência que alimento de ver filmes em português (oxalá esse princípio fosse moda), só o esquema temático que envolveu a sua divulgação me daria razões para ignorá-lo. Recordando contudo a riquíssima humanidade de “Jaime”, lá fui, esperançado como sempre, para um pedaço de tarde passado na “sala escura”.
E não me arrependo nada.

A televisão portuguesa mostra obras medíocres porque quer, e ponto final

Pela minha parte, não tenho complexos nenhuns em afirmar que “Call Girl” é um belíssimo filme, de narrativa fluente, luzes e sonoridades expressivas, ritmos cuidados por um profissionalismo amadurecido e actualizado.
Algumas vozes queixam-se da abundância das “gros mots”, copiosamente usadas pelos personagens e da exibição sem grandes peias da esplendorosa sensualidade de Soraia.
Os críticos que tais fantasmas agitam devem usar umas asinhas brancas e andar muito distraídos.
Qualquer adolescente novinha das escolas usa e abusa de tais expressões, na fruição plena duma novidade destravada pela contemporaneidade. Julgo até que, para elas, tais palavras já nem significam o que significaram, nem representam o que representaram para outras gerações. Alguns quilómetros mais a Norte, pertenceram sempre ao léxico mais vulgar e até castiçamente familiar.
Quanto ao erotismo, um dos condimentos evidentes em “Call Girl”, não vi nada que ultrapasse os atrevimentos desatados pela própria televisão e muito longe do que a Internet divulga escancaradamente.
Tudo o que este filme nos oferece está dentro dum excelente sentido de medida ou seja, nada é mostrado que vá para além do que procura revelar.
Aliás, surpreende o facto de ser apoiado por uma cadeia televisiva que produz obras de ficção sem os mínimos princípios de qualidade que abundam nesta realização de António-Pedro de Vasconcelos. Porque não coloca tal cadeia ao seu serviço uma tal estética ficcional, a mesma qualidade dos textos, a direcção de actores e um tão esclarecido sentido de mensagem?

Polícias assim, não sei se os há: mas apetece acreditar que existem!...

“Call Girl”, e só a repetição do título me causa um certo calafrio é, aliás, um magnífico exemplo de como a ficção pode transportar as contingências da realidade vivida e percebida, sem ser por impulsos traumatizantes ou pela receita da violência como aliciante mediático.
Uma palavra para o excelente desempenho dos actores, que demonstram um leque de recursos cheios de sentido criativo, tornando-se irresistível recordar a “criação” preciosa dum ministro “com sotaque”, como aqueles notáveis da toleima que andam a tentar inventar uma forma só sua de falar português, com “letgas tgocadas umas peuas outgas” para convencerem que são chiques.
O filme procura demonstrar, como tantas obras do estilo policial, que há polícias humanizados, idealistas e de elevado teor de honestidade, com os quais o “poder-poder” se não dá bem.
A última cena do filme, com dois homens cansados de guerra, saindo pela doce manhã para mais uma tarefa rude de perseguição ao crime, é empolgante e poética.
Não sei se há muita gente assim, pronta a lutar com coragem pela verdade e pela rectidão.
Mas conforta a alma do espectador pensar que sim.
Se esse instante for repartido por todos aqueles que foram ver o filme, daqui mando o meu abraço a António-Pedro, fazendo votos que continue a fazer filmes com polícias voluntariosos e apaixonados, mulheres bonitas que têm o seu ponto fraco e autarcas quase impossíveis, daqueles que acreditam que não se devem abater sobreiros!...

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