Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

15.6.04

O Cerejal, de Anton Tchekhov pel’A Escola da Noite

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2004

Ir a um espectáculo de teatro continua a ser uma das formas sociais mais inteligentes e interessantes de passar o tempo. Ali o espectador não é objecto de emoções injectadas pela paixão incontrolável ou pela excitação desabrida.
A pessoa que vá ao teatro é sujeito principal duma acção estimulante do espírito e nada há numa peça, por mais excelente, que não tenha de ser arquitectado na mente de quem vê, de forma sensível e perceptiva.
Mesmo que já se tenha visto antes, mesmo que se conheça o autor e o texto esteja bem presente na memória, a representação traz sempre consigo uma novidade, um desafio, uma renovação da nossa capacidade de ver.
Que coisas poderá trazer-nos esta obra, cem anos depois de ter sido estreada no contexto específico do colosso cultural da Rússia de Tchekhov?
Fixemo-nos apenas numa ideia que opressivamente condiciona todo o entrecho e que para mim é o personagem principal, sem ser actor nem figura material visível. A ideia de mudança, de princípio e de fim, de transitoriedade fatal de tudo aquilo que se agita sobre o palco cénico tal como no mundo e na vida.

A vida, palco infinito de miragens sobrepostas

No terceiro acto, enquanto Pétia e Liuba Ranevsky travam um diálogo absorvente e esta se confessa perdida e desorietada como num mar revolto, temerosa perante o desastre eminente, lá atrás no salão, decorrem festejos ao ritmo duma música excitante.
O interessantíssimo e eficaz dispositivo cénico dá ao espectador essa simultaneidade de mundos que entre si se confundem, dizendo uma coisa as palavras e anunciando outra os sentidos, tal como nas contradições universais da vida.
O que é a verdade? pergunta Liuba a Pétia, discorrendo sobre todas as coisas graves do envelhecimento, da perda, do sofrimento e da dureza da vida: o filho morto no rio, a casa mãe à beira do abismo, longínqua e perdida já a doirada tradição da abundância e a certeza num mundo seguro e imutável.
A intervalos regulares invadem todo o espaço a irrequieta música que não se cala, o bulício circense e a vitalidade sensual dos corpos que bailam.
Exactamente como na vida de todos os dias, há cem anos como agora, o amor e a morte dão-se as mãos num encadeado de contradições sem freio, de miragens sobrepostas, de breves feixes de luz colorida que a obscuridade triste da realidade envolve, pesadamente.
Ermolai Alexeevitch Lopakhin é o novo rico que está ali, cheio dos argumentos indestronáveis do poder e do sucesso, para demonstrar que a vida prossegue, implacável, dando razão a quem pode enfrentá-la com imensa energia, rudeza e uma indispensável fortuna rara e casual.
Ania, criança virginal de amor, acaba por fugir com Pétia depois de o ter simbolicamente armado com as suas perdidas polainas, frágil garantia de longa e proveitosa jornada direitos ao coração do futuro.
Para a nobre família a catástrofre inevitável consuma-se entre preparos e arrumações diversas, árvores que se abatem e servos para sempre fiéis, até no inevitável instante da morte.

Mil janelas, mil bandeiras verde rubras

Pateticamente ausentes já, olhar ansioso fixo num ponto indistinto do horizonte, os velhos aristocratas despedem-se ao sair para um Paris simbólico que não existe para eles, porque não existe, pura e simplesmente.
Fazem-me pensar nas varandas e janelas do meu país ilusório e festivo, inundadas de bandeiras nacionais, conclamando as gentes a uma estranha unanimidade de entusiasmos galvanizantes.
Será que os optimistas que assim se exprimem ignoram que o estandarte republicano, em seu contraste dramático de cores elementares, simboliza mais as dores e o sofrimento que a frescura da esperança? Quem há aí, dentre vós, que tenha reparado que o vermelho é muito mais que o verde, e apela à determinação, ao espírito de sacrifício e à aceitação do destino trágico?
Ou será que cem anos depois d’O Cerejal, a música fácil e a tontura das danças continua a iludir a palavra reflectida e o discurso incómodo da verdade?

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4.6.04

Daquel Abrente, o Centro Dramático Galego na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 4 de Junho de 2004

O Teatro é um acontecimento para se festejar de pé, ombro a ombro, com alegria e lágrimas que fazem tremer os lábios por se ter soltado nas veias o sangue espesso da verdade. Se isso for em praças de gente madura, tanto melhor, para que não ecoe solitariamente a voz que deve ser de muitos, para toda a gente.

“Daquel Abrente”, memória de uma alvorada

Em visita de qualidade veio da Galiza a proposta cenográfica citada, em intercâmbio organizado pel’A Escola da Noite que também se apresentou em Santiago de Compostela com trabalhos sobre Gil Vicente, para trazer testemunho do corajoso acontecimento, há vinte e cinco anos, da fundação do teatro profissional naquele país.
Se digo país penso na vontade de afirmação cultural e na capacidade de organizar essa e outras modalidades de intervenção, das quais se salientam hoje as peças escritas por dois notáveis autores galegos : “Laudamuco, señor de ningures” , de Roberto Vidal Bolaño e “O velorio” de Francisco Taxes.
Obras escritas nos anos setenta, num momento de transformações importantes na Península Ibérica em geral e na sociedade galega em particular, recorrem a uma estética de clareza e frontalidade emocional onde é possível descortinar raízes da expressão artístico-literária vincadamente autóctones umas, e de perfil universalista, outras.
Inevitável é mencionar a qualidade de amadurecimentos acumulados neste quarto de século por alguns dos actores em cena. A figura imensa de Rouco, por exemplo, feita por Rodrigo Roel, encarna a figura do servo e sustentáculo único da paranóia de um rei que já não é, no plano de descolocação patética de uma farsa que abre caminho à mais certeira ironia e ao mais devastador retrato dos poderes absurdos, das proeminências ridículas e das dignidades putrefeitas.
“O Velório”, que foi na época em que estreou uma obra revolucionária e que já em 1978 arrastou uma multidão de entusiasmo ao FITEI do Porto, ao qual regressa este ano, é o traço expressionista a branco e negro de uma explosão de indignações recalcadas perante o ocaso do poder, simbolizado pela morte da figura opressora e tutelar. A acção desenrola-se no clima de excesso e destemperança das festas e ritualidades parateatrais, apetecendo ainda mencionar o “esperpento”: género teatral que surge com “Luces de Bohemia” de Ramón del Valle-Inclán, em 1924, e no qual se fundem de modo particular o sentido da farsa e da tragédia.
Na continuidade que estes espectáculos evidenciam há que referir também o conjunto musical dos irmãos Morán, protagonistas do roque galego dos anos setenta e que actuam ao vivo ao longo das duas peças com sublinhados e intervenções de efeito surpreendente.

A fala galega, só deles ou também nossa?

Se há razões que a noite húmida e quente deste fim de Maio oculta em seu segredo, não deixa de ser impressionante que tenhamos podido assistir a todo um serão de teatro em fala estrangeira que todos nós fomos percebendo de maneira intuitiva. Assim à maneira de uma coisa antiga que perfeitamente reconhecemos, sem termos
sido obrigados a ter de estudá-la na escola.

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