Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

19.5.04

Rappaport pela Bonifrates sobre a velhice com graça sem mentir

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 19 de Maio de 2004

Como é que é possível falar da velhice sem desmoralizar as pessoas que tenham mais de trinta anos, colocando na mensagem suficiente ardor de clareza e a dose certeira de verdade?
Como é que é possível falar da velhice sem aborrecer as pessoas com menos de trinta anos, essa magnífica porção das nossas vidas durante a qual a perda da juventude, sem ser por lampejos vagos ou fatalidades casuais, parece ser um país tão longe, tão para lá dum oceano de sonhos magníficos, ainda por atravessar?
Por uma vez na vida, caro leitor, à fé de quem sou, faça o que lhe digo: vá ver a peça que a Bonifrates leva à cena no teatro de bolso da Casa Municipal da Cultura, e não terá que se arrepender. As tarefas de dramaturgia e a encenação são de João Maria André, ficando eu triste por não poder detalhar toda a equipa de trabalho, tão eficaz e acertada que tudo na peça parece fácil.
A realização reflecte simplicidade sem falta de requintes: uma entrada através do cenário, ao fim dum amplo corredor atapetado com cascas de pinheiro a estalar debaixo dos pés que sugerem as coisas antigas e fundamentais da natureza; uma música de fundo composta para o efeito, sinalizando de forma inspirada as circunstâncias que viajam pela peça dentro; um lote de actores secundários perfeitamente credíveis que entram a tempo e fazem bem o que lhes toca sem vacilar e, para finalizar, como se fosse coisa simples, um par de actores principais dispostos a enfrentar denodadamente um texto que atravessou o Atlântico fazendo grandes sucessos em ambas as suas margens e tendo ganho esse raro e difícil galardão que é chegar a ser cinema, interpretado por actores mundialmente conhecidos.

A realidade maior também pode ser inventada

O entrecho desenrola-se num banco de jardim duma grande cidade em que a visita de intrusos maldosos parece ser coisa fatal e inevitável.
Os protagonistas são dois velhos que fazem do glaucoma, das cataratas e dos acidentes ortopédicos histórias contáveis a par de muitas outras coisas vividas, arduamente sofridas, risonhamente sonhadas ou simplesmente... inventadas. Isso, inventadas, porque a invenção é um navio sempre pronto a largar, tenha o piloto um coração forte e sejam largas e generosas as velas da imaginação!...
Ambas as figuras evidenciam a problemática universal das pessoas de idade avançada enquadradas, para mais, em contextos sociais desumanizados, indiferentes aos direitos dos cidadãos mais isolados e desvalidos.
Victor Torres e Fernando Taborda são “Nat” e “Midge”, duas figuras cujas caracterizações dicotómicas tocam extremos tão frequentes no romance e no teatro (um “D. Quixote” e um “Sancho Pança”). Se o primeiro se exalta na exuberância idealista e na bravata destemida e vulnerável o outro rasteja, terra a terra, em obediência ao mais pragmático conformismo.
Conseguem isso, aliás, operando essa coisa simples e tão natural em grandes actores de teatro que é o prodígio da transfiguração. Um é o cegueta assustado e escapista, o outro um impulsivo sonhador que ergue o braço frágil e a mão tremente como se fosse um desfraldado estandarte combativo, inebriado pelas palavras, como quem se olha ao espelho dos mais calorosos ideais.
Como acontece no discurso literário, além da acontecer na própria realidade, são duas figuras que se fundem numa amálgama de contradições produtivas, numa abundante percepção da vida, feita de uma imensidade de gestos com sentido e de raros momentos felizes com lágrimas ou sorrisos, em que a vontade coloca o destino nas mãos dos homens como uma flor gentil, demasiado frágil para que dure, demasiado preciosa para que desistamos dela.
Vá leitor, faça o que lhe digo: vá ao teatro! Vá, que é com isso que pode dar à vida um dos seus sentidos principais. Vá, enquanto é tempo, não venha a velhice um dia por aí apanhá-lo irremediavelmente desprevenido.

14.5.04

Ridiculum Vitae, solos para duas atrizes em noite de sonhos e de sombras

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 14 de Maio de 2004

Helena Faria e Alexandra Silva são duas atrizes excelentes, cuja persistência nas artes de palco já granjeou um abundante lote de recursos expressivos de que dá testemunho abundante a peça que tem ido à cena no Inatel, depois dum largo percurso de representações noutros locais.
A peça é constituída por diversos quadros que fazem desfilar perante nós um variado grupo de casos femininos, criaturas situadas naquela margem da vida em que os desencontros e a caracterização problemática se cruzam com essa debilidade a que chamamos ridículo, e que tão mais frequentemente abunda do que à primeira vista pode querer parecer-nos.
A densidade de conteúdos e o primoroso desempenho ficam na memória de quem tenha visto a peça, como segredo e privilégio bem guardados.
Com efeito, numa noite de festas estudantis como há tantas, em que milhares de jovens saturam a cidade de ânsias naturais e alguma sofreguidão incerta de futuro, entra o espectador na sala enorme de espaços vazios e assusta-se, transido pela solidão que rodeia o culto excelente das palavras sentidas.
Leio o modesto folheto editado pela Associação Cultural Camaleão e reparo que a ficha técnica do cuidadoso espectáculo pede meças ao número de espectadores presentes.
E não é por ser esta a peça, nem por serem estas as actrizes (que já sublinhei serem excelentes), nem por ser esta a sala (que até está situada no caminho de toda a gente que atravessa Coimbra numa noite de sombras e sonhos!...)

A falta de meios, uma história mal contada

Cada sociedade elege os ídolos que quer e que entende, e as suas maiorias estão atentas a tudo aquilo que comporte uma compensação imediata, uma facilidade, um estímulo gratuito, mas nem sempre inóquo, partilhado pelos ecrãs da notoriedade.
Estar na crista duma onda iluminada, tonitroante de fama e de sucessos, eis o que cativa e reune multidões. E os pastores de entusiasmos sem sentido não regateiam os meios, os milhões estão ali, palpitantes, que não me deixam mentir.
Daí que me canse, e ofenda até, ouvir a cantilena roufenha da falta de meios para tudo o que seja um esforço semeador e inteligente.
O futebol é a mais milionária das encenações, a que agita mais dramas vazios e anima mais conflitos, a que está mais à mão de toda a gente para alívio de tensões diárias, de entusiasmos que sufocam sob a pressão de carências sem nome.
No Inatel, com as mesmas velhas roupagens que lhe conheço de há um ror de anos, um par de fervorosas beatas em delírio de idolatria folclórica, uma atriz porno remoendo no seu íntimo medos e desejos desordenados, uma feirante de língua de prata em fuga com filhos nos braços e várias outras figuras de vivo recorte cénico, desfilam perante nós com toda a eloquência de trajectos difíceis, verdadeiros, pungentes ou complexamente ridículos!
Na rua, a caminho da festa maior, vários grupos de estudantes caminham duvidosamente alegres (ou quase tristes...) alguns demasiado ébrios para darem bom nome ao vinho que beberam.
O teatro fica à espera deles. Um dia, quem sabe, talvez com ele se cruzem, em sua ilusão e ânsia de futuro

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